A chegada de um filho transforma profundamente a vida e a identidade de uma mulher. Mas, em meio ao amor e ao encantamento da maternidade, surge frequentemente uma companheira indesejada: a culpa materna.
Um belo e honesto relato recente da jornalista Marina Izidro, publicado na Folha de S.Paulo, ilustra perfeitamente esse conflito. Ao decidir deixar seu bebê de três meses por uma hora em uma creche para poder correr em uma esteira de academia, ela foi atingida por um questionamento: “Se estou fazendo algo que amo e me faz tão bem, por que me sinto como se estivesse abandonando meu filho?”
Essa é uma dor compartilhada por milhares de mães. Na Clínica Presente Psicologia, ouvimos frequentemente relatos de exaustão e da sensação de perda de individualidade nos primeiros meses e anos da maternidade.
A culpa não nasce do nada; ela é fruto de um ambiente e de um sistema que sobrecarregam as mulheres. O relato da jornalista aponta questões estruturais que impactam diretamente a saúde mental das mães:
Falta de rede de apoio: A distância das avós, tios ou amigos próximos isola a mulher, exigindo que ela assuma 100% da carga de cuidados.
Licenças parentais insuficientes: A ausência de políticas públicas mais justas (como licenças-paternidade mais longas, que no Reino Unido, por exemplo, duram apenas duas semanas) deixa as mães sozinhas em um momento de extrema fragilidade, privando também os pais de um tempo precioso de vínculo.
Sobrecarga financeira e emocional: Com salários-maternidade que muitas vezes não cobrem o básico, as mães abrem mão de pequenos momentos de individualidade, como o exercício físico ou o lazer.
Muitas vezes, a atividade física é vista como um luxo, mas para a mulher que acabou de dar à luz, é um resgate do próprio corpo e da própria autonomia. Retomar o movimento é uma forma vital de reequilíbrio psicocorporal.
Uma pesquisa realizada em 2019 pelo Sport England revelou dados reveladores que toda mãe deveria conhecer:
A culpa é coletiva: 61% das mães admitem sentir culpa ao escolherem se exercitar em vez de passar esse tempo com a família.
Menos estresse: Mulheres que mantêm uma rotina ativa lidam muito melhor com as pressões, o estresse e a privação de sono.
Mais confiança: O autocuidado físico devolve a energia e a autoconfiança necessárias para os desafios da criação.
Exemplo positivo: Mães ativas naturalmente encorajam seus filhos a adotarem o esporte e a terem uma vida mais saudável no futuro.
Como uma amiga lembrou à autora do relato antes dela ir correr: “Uma mãe feliz é igual a um bebê feliz”.
Abdicar completamente de quem você é não faz de você uma mãe melhor; apenas uma mãe mais exausta e propensa ao esgotamento emocional ou à depressão pós-parto. Buscar “ter a chance de sair de casa e se sentir como um ser humano” não é egoísmo, é sobrevivência psicológica.
Fonte: IZIDRO, Marina. “Voltei a correr depois que meu filho nasceu; se me faz tão bem, por que sinto culpa?”. Folha de S.Paulo, 02 de outubro de 2026. Para ler o ensaio original completo, clique aqui.
Avenida General Francisco Morazan, 164 – Vila Sônia (São Paulo)
Presente Psicologia © 2025 Todos os Direitos Reservados